Uma homenagem à mulher-mãe!

"E num dia de bendita magia, numa explosão de luz e flor, num parto sadio e sem dor, é capaz, bem capaz, que uma mulher da minha terra consiga parir a paz. Benditas mulheres." Rose Busko

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Acompanhante de parto é um direito irrevogável

Que estamos vivendo tempos difíceis, todos sabemos. Mas nem a pandemia não é argumento forte o suficiente para que se negue à gestantes o direito a um acompanhante, garantido pela Lei Federal nº 11.108/2005.

A Rede pela Humanização do Parto e Nascimento - ReHuNa - publicou ontem um texto justamente sobre esse tema. Segundo eles, embora a restrição a presença do acompanhante e da doula sejam medidas que receberam respaldo de algumas sociedades científicas e gestores municipais de saúde, esta não é uma posição universal.
"A pandemia de coronavírus claramente representa uma ameaça séria à saúde pública, e por isso mesmo tem sido utilizada como justificativa para a suspensão do direito ao acompanhante no parto. Todavia, mesmo em contexto de extrema gravidade e emergência, a suspensão de direitos deve obedecer a alguns princípios; e certos direitos não podem ser suspensos, em qualquer circunstância"
Se você foi informada que terá seu direito a acompanhante negado, procure o Tribunal de Justiça e exija cumprimento da lei. Esse tipo de restrição viola seus direitos legais e não encontra respaldo das autoridades públicas e sanitárias.



A chegada da Nina - Por Ana Mel Castro

Minha pequena flor chegou no início da primavera. Veio abrir o mês de outubro, nosso mês, numa madrugada intensa e veloz.

Na minha experiência anterior, fui pega de surpresa por uma bolsa rompida às 36 semanas de gestação. Não tinha dado tempo de me sentir exausta de estar grávida, não tinha dado tempo de ficar ansiosa com o parto e nem muito menos de ter bolsa de maternidade pronta.

Dessa vez, bolsa de maternidade mais do que pronta um bom tempo antes. Cansaço em dia, com dores bem incômodas da reta final. Ansiedade apontando, e a tentativa de viver um dia de cada vez e entregar a Deus tudo em relação a vinda da minha menina. Quase sem querer, até as unhas eu acabei fazendo, no próprio dia, sem o menor planejamento. Fillipe conseguiu fazer uma reunião importante, que na verdade seria na sexta e ele achou prudente adiantar (mesmo sem sala disponível pra reunir mais de vinte pessoas). Tudo de encaixando perfeitamente, sem que a gente soubesse. 

Se por um lado optar por deixar que uma criança escolha a data de chegar nesse mundo nos deixa ansiosos (justo nós, essa geração extremante imediatista, deixando a vida acontecer), ela também põe cada coisa em seu lugar. Experimentar a chegada sem previsão certa de uma criança, nos relembra: não temos controle. Não sabemos de nada. Precisamos focar no aqui e agora e entregar o resto.

Quantas lições profundas! 
Taí uma bela forma de meditar: parir.

Era uma segunda feira, e fui dormir por volta de meia-noite. (Devia ter ido mais cedo, rs). Faltavam 10min pras 2h da manhã e eu tinha levantado pra fazer o primeiro xixi da madrugada. (Quem tá no fim de uma gravidez sabe que o xixi passa a ser quase que de hora em hora). Pois bem. Lá fui eu, no automático. Dei uma olhada no papel higiênico pq podia vir algo diferente. Mas não veio. Ok. Voltei pra cama, e assim que deitei senti algo escorrer. Muito pouquinho. "Fiz xixi na cama?', pensei. Haha. (Se você nunca viu um relato de parto e tá achando esse texto muito esquisito, pode ficar à vontade pra parar de ler aqui mesmo) 😄

Voltei pro banheiro, e senti algo escorrer mais. Foi então que percebi que se tratava da bolsa. (não tem cheiro, definitivamente não é xixi, e como eu já tinha passado por isso, reconheci). Ok. Respirei e pensei "tá, ela tá chegando. Que dia é hoje? Primeiro de outubro, legal.". Levantei, a água continuava caindo aos poucos e fui chamar o Lipe. "Amor ..." "Hum?" "A bolsa estourou". "Sério???" Entrei logo no chuveiro e comecei a sentir uma cólica. Em 15 minutos, a cólica já era dolorida. Ligamos pra doula (e vizinha, graças ao bom Deus!) E em menos de 10 minutos ela tava lá. 

Ainda no telefone ela me disse pra irmos direto pra maternidade. (Esse não é o usual num parto natural, a intenção é sempre passar a maior parte do trabalho de parto em casa, onde ficamos mais confortáveis). Diante dessa fala dela, percebi que realmente o processo poderia ser bem rápido. Chamamos nossa amiga querida e vizinha, Tati, pra ficar com Bento que dormia. Já tínhamos combinado isso antes. Logo ela estava aqui, e eu me vestia entre uma cólica e outra. Já eram contrações, e bem próximas. Eu respirava fundo e entrava em cada onda. Em algum momento ouvi Bento chorar, e nessa hora me preocupei um pouco. Ele notou o movimento , Lipe contou pra ele que a irmã tava vindo e claro que de madrugada as percepções são diferentes. 

Foi um pouco difícil deixá-lo. Mas eu entrei no carro e entreguei. 
Eu sabia que ele estaria bem!

A ida pra maternidade foi a parte mais difícil. Contrações num carro: Não recomendo. O caminho era super curto, mas me pareceram quilômetros sem fim. 

Ao chegar lá, uns 10 minutos depois, perto das 3h da manhã, as contrações seguiam super intensas. Meu obstetra me esperava na porta, com seu sorriso-casa. Abriu os braços pra mim e seguimos para a salinha de triagem. Lá fui examinada por ele, que contava calmamente "dilatação total". Só lembro de flashs. Minha doula me segurando firme em algumas contrações, em outras me apoiava no Lipe enquanto ela massageava minhas costas. O nome disso é privilégio, eu sei. Parir sem interrupções, sem julgamentos. Estar cercada de gente que respeita o meu corpo e simplesmente não me atrapalha. Sim, nosso corpo já sabe bem o caminho. 

A dor era intensa nessa hora. A entrega também. Lembro de dizer "estou nervosa" quando senti que havia deixado de entrar numa das ondas, e esquecido de respirar fundo. Ouvi da Cátia e do Lipe "você está indo muito bem. Deixa vir. Ela já já chega". 

A sala de parto natural estava ocupada. Fomos pro único quarto vago, e ao chegarmos lá, senti que estava muito perto da linha de chegada. Reconheci a mudança do chamado "parto ativo", para o "expulsivo". Sim, um momento muito intenso, muito forte mesmo. 

A vontade de fazer força veio com tudo, e deixei meu corpo agir. Só deixei, realmente. Mesmo com dor intensa, mergulhei. Em apenas duas contrações senti minha filha chegar nos meus braços. O relógio marcava 3h32. Como ela foi rápida! Minha guerreirinha. 

Ela chorava forte, mas nem abriu os olhos. 
Eu e Lipe cantamos juntos pra ela. 
Ficamos os três ali, imersos. 

Segurar a Nina por 1h no meu colo foi incrível. Ninguém tirou ela de mim. Procedimentos desnecessários não foram feitos. Quando o cordão parou de pulsar, Lipe o cortou. Alguns minutos depois a placenta também nasceu. Tudo estava bem. Em pausa.

Tudo era presença. 
É o milagre do nascer. 
É a potência da vida. 
É o começo da existência sendo visto como realmente é: sagrado!

Fotos 📷: @leticiamaiafotografia 💛
Ps: não temos fotos do trabalho de parto em si por motivos de "não deu tempo". 😅

Imprinting

Por Ana Kacurin

Parto não acontece só no corpo. Não é puramente um evento fisiológico. Ele também acontece na alma, na mente, no coração. A gente pare com toda nossa história, com tudo que a gente leva no peito. Enquanto portais, nos abrimos por inteiro e nessa abertura, acessamos toda nossa história, toda nossa vivência, nossos medos, nossos sonhos, nossas expectativas... Chegar do outro lado pode ser uma longa e árdua tarefa, mas a vista... é recompensadora.


Nosso encontro de Junho


Um papo sobre dor, sobre limites à transpor, sobre as barreiras encontradas e vencidas. 

É, o parir tem seus desafios... para umas mais que para outras. Cada dupla trilha uma estrada só sua. Mas essa não é uma jornada  que se precisa trilhar só. E na presença incentivadora e no olhar empático que quem nos acompanha, encontramos forças pra prosseguir.

Aprendizado definiu nossa manhã de ontem. E foi tão rico e com tantas histórias q não lembrei de fotografar o encontro. 

Gratidão a todas q fazem de nosso grupo um sucesso. E de quebra ainda trazem esses pequenos lindos pra gente babar <3

Aguardo vocês em julho para mais uma Conversas de Mãe.

Viés implícito e a atuação da Doula em hospitais

Não é segredo que a natureza do trabalho da doula é a prestação de "suporte físico e emocional à gestante, antes, durante e depois do parto". No entanto, também não é segredo que para prestarmos esses cuidados, muitas vezes suportamos toda sorte de discriminação pessoal ou institucional. E é sempre importante lembrar que esta perseguição constante é fator de risco para a doença ocupacional.

Saiba mais em: https://www.youtube.com/watch?v=R9K4KdaI-6g
Sim, a atuação da doula agora é lei no estado e no município do RJ e em diversos outros. Mas se em alguns locais a proibição é explícita, em outros nossa entrada acontece, mas isso não impede que as barreiras invisíveis construídas pela discriminação afetem a profissional, gerando, no mínimo uma enorme frustração e desgaste emocional.

"O primeiro problema é a falta de reconhecimento de que existe um problema." 
MARIA CÂNDIDA ALMEIDA

O ponto crucial desta questão é: boa parte das instituições e equipes não admite declarada e abertamente essa discriminação, o que não faz com que ela desapareça, apenas a torna implícita nas atitudes e decisões em relação àquele profissional em específico - essa é a natureza do viés implícito.

O viés implícito pode vir em muitos diferentes comportamentos e afeta o modo como interagimos com as pessoas. Olhares atravessados, má vontade, desdém pra com as falas da pessoa ou simplesmente agir como se ela não estivesse ali, são apenas alguns exemplos. E quem pensa que por ser doula a pessoa está isenta de ter vieses, provavelmente se engana. 

Para serem combatidos, os vieses precisam ser identificados, tanto individualmente quanto nas instituições. E isso exige um auto-exame profundo, já que muitas vezes o viés surge em atitudes que nos escapam. Mas apenas o reconhecimento de sua existência nos permite lutar para evitá-los e elimina-los.

Sem nenhuma ação individual/institucional para superação do viés implícito e seu efeito - a discriminação - o profissional pode vir a sofrer de doenças ocupacionais como burnout ou fadiga de compaixão, com todas as conseqüências possíveis para sua saúde (exaustão física constante, por exemplo), vida pessoal (depressão) e carreira (abandono, por exemplo).

E para nós, profissionais, o que pode ser feito? Vou listar algumas dicas...

- Uma estratégia pode ser a construção de grupos regionais de apoio. Ao estar entre iguais, pode ser mais fácil encontrar estratégias para lidar com o estresse das relações interpessoais e da desconstrução de preconceitos. 

- Outra estratégia pode ser o autocuidado. Uma alimentação balanceada, atividade física e lazer têm ótimo potencial pra ajudar a superar o estresse laboral.

- Quem cuida também precisa de cuidado, nunca esqueça disso.

- Solicitar feedback também pode ajudar. Eu acho que de quando em vez todo mundo precisa ser lembrado de porque escolheu o caminho que escolheu e se dar suporte é sua vocação, se saber bem sucedida talvez ajude a reforçar essa escolha.

Você também tem dicas de como ajudar? Deixe um comentário com suas dicas... 

E se você teve uma doula e ela foi importante pra você? Diga isso à ela - tem dias que a gente precisa de colo e saber que fizemos a diferença tem o poder regenerador de um abraço apertado.

Até a próxima!!

Pergunte a uma Doula

Quando uma mulher me procura para doulagem, sempre agendo uma entrevista. Uma oportunidade para que elas me conheçam, pra que eu as conheça e, a partir desse encontro, ela poder entender se eu serei a doula certa pra ela.

Mas muitas mulheres têm dúvidas sobre o que perguntar nesse encontro, então separei uma lista de perguntas que li um tempo atrás em um blog e achei muito úteis (as perguntas e respostas estavam em inglês e foram traduzidas por mim - algumas estão modificadas). Não se prenda a lista... monte a sua:

Nosso encontro de Março

VBAC foi o tema... mas teve bem mais. O papo correu emocionante e repleto de informações e evidências, como deve ser. Mais uma rica troca numa deliciosa manhã de sábado.

Não pode estar conosco? Então anota na agenda e já reserva a data pq mês que vem tem mais e esperamos você pra enriquecer nossa próxima Conversa de Mãe. Até lá









Nosso encontro de Fevereiro

Fevereiro - nossa primeira Conversa de Mãe do ano. Reencontros, relatos, acolhimento e muita troca. Um papo pra lá de animado e respeitoso sobre os caminhos da busca e da conquista do parto humanizado. Falamos de frustrações, de medos, de superações. Celebramos conquistas e acolhemos as lágrimas. Um belo jeito de começar o ano.

Mas se você não pode estar conosco, tudo bem - mês que vem tem mais. Confira a agenda no site e junte-se a nós. Esperamos por você!!
  









É ano de Aniversário

2018 pra nós é ano de celebração - nossa Conversa de Mãe completa 10 anos de existência. E queremos comemorar esse sucesso com vocês.

Vamos começar a agenda do ano falando de um tema pra lá de importante: A Busca pelo Parto Humanizado, e nós gostaríamos de propor uma reflexão até lá!

A ideia é assistir ao documentário "O Renascimento do Parto" e a cada episódio podemos começar a refletir sobre o assunto. 

O Primeiro episódio tá aí e os demais vêm em sequencia. São 8 ao todo
No inicio de fevereiro teremos um encontro daqueles!

VBAC - Parto Normal após Cesariana

Até um tempo atrás valia a máxima "uma vez cesárea, sempre cesárea". Os motivos? Vários... mas o destaque ficava por conta do medo - não se sabia como um útero previamente operado se comportaria diante de um trabalho de parto e parto. Hoje há respaldo científico para afirmar que um parto normal é seguro, ainda que a mulher tenha cesariana prévia. A tão falada ruptura uterina tem índices de 0,72% (após 1 cesariana) à 1,36% (após duas cesarianas)¹. 

Mas para além das evidências sobre os riscos, me deparo com mulheres enfrentando um conflito entre o desejo de experimentar a experiência do parto e o medo de se arriscar numa jornada desconhecida. Afinal a cesarina já não é mais uma novidade para essas mulheres.

Num texto breve sobre uma metassíntese das experiências femininas, a Dra Melania Amorim destaca de modo brilhante:

Dialogando sobre dor

Nosso primeiro encontro de 2017 propôs uma reflexão pra lá de importante - as dores da maternidade... e elas não são poucas.

Não é segredo que, em nossa sociedade, a dor se tornou um tabu e uma aversão. Basta observar a reação de alguém diante de um comentário seu sobre uma dor de cabeça. Ainda que você esteja visivelmente cansado e essa cefaleia seja apenas seu corpo implorando por sono, dificilmente alguém lhe dirá "porque você não vai pra casa, toma um banho morno e dorme um pouco". É bem mais provável que apenas te ofereçam um analgésico.

Primeiro porque a vida não pode parar pra você descansar - há muito o que fazer - e depois que ficar sentindo dor é tido como masoquismo.

Estamos aos poucos perdendo a habilidade e a paciência para ouvir nosso corpo e lidar com suas dores de modo curativo... a maioria não se pergunta de onde a dor vem - quer apenas se livrar dela. Mas ignorar uma dor é como ignorar um alarme de incêndio... você pode até fazer a dor calar, mas o motivo dela não. E mais cedo ou mais tarde o estrago sempre aparece.

Te surpreende saber que o parto não é, em nada, diferente?

Iatrogenias no parto - o outro lado da dor

Iatrogenia - qualquer alteração patológica provocada no paciente por um procedimento médico errôneo ou inadvertido, isto é, feito sem a devida reflexão e indicação.

Claro que o inesperado acontece, e exatamente por isso estão excluídos desta definição os resultados inesperados de ações clinicamente adequadas, como por exemplo, uma reação alérgica consequente da administração de dipirona à um paciente com febre alta. A menos, é claro, que a alergia fosse conhecida (notificar uma alergia ao profissional de saúde que te atende é sempre fundamental).

Mas como caracterizar se determinada conduta é ou não correta no meu caso? O melhor seria que cada um de nós pudesse contar com profissionais ou equipes em quem confia. Mas felizmente, em obstetrícia, as evidências são muito acessíveis e não é preciso ser formada em medicina para rapidamente descobrir que episiotomias de rotina, por exemplo, são iatrogênicas.

Publicado em 2014, o Inquérito Nacional Nascer no Brasil nos trouxe o retrato de uma assustadora realidade - a chance de dar à luz sem intervenções em nosso país é remota. Apenas 5% das mulheres tiveram a experiência do parto fisiológico, segundo a pesquisa, que foi coordenada pela Fiocruz e cobriu todo território nacional.

Muitos procedimentos passaram a ser usados de forma rotineira, causando mais traumas do que benefícios. Assim, a oportunidade de um parto o mais natural possível, passará antes de mais mais nada por suas reflexões e escolhas. 

Pra ajudar você começar a entender, trouxemos o vídeo-documentário da pesquisa que aponta algumas das intervenções mais usuais no Brasil. Saiba mais sobre a pesquisa, acessando o site http://www6.ensp.fiocruz.br/nascerbrasil/

E se quiser ajuda na busca por um parto mais respeitoso e fisiológico, junte-se a nós na proxima Conversa de Mãe. Esperamos por você!!

Nem todo vício é ruim...


Vício - do latim vitium. No dicionário "falha" ou "defeito" - um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem. Será? Eu prefiro definir como adicção ou dependência, sem atribuir ao termo (nesse caso) uma conotação negativa. Explico...

Quem conhece sabe, vida de doula não é mole. A gente é acordada no meio da madrugada, dorme pouco, não raro perde o final de semana, feriado, festas e quase nunca tira férias. Com frequência me perguntam até quando eu vou aguentar isso e eu sempre respondo com convicção "Se Deus permitir, quero morrer trabalhando".

É, partejar pra mim é um vício. Algo sem o qual não consigo me imaginar. Partejando me sinto inteira, livre. Ali ao lado de uma mulher parindo, me invade uma profunda sensação de pertencimento. Me vejo parte de algo muito maior que eu. Presenciar o milagre da vida em sua forma mais visceral e honesta envolve tanta oxitocina, endorfina e adrenalina que não me ocorre querer parar.

Relato de parto sem censura

Desde o início, tudo com relação a gravidez é antagônico. 
Suspeita de gravidez. 
Ai caramba! Não posso estar grávida. 
Resultado negativo. 
Ah, poxa! Não to grávida... 
Suspeita de gravidez. Não posso estar grávida. Será que to? 
Resultado positivo. 
To grávida! Ai meu Deus! To grávida! E agora...?

Mesmo antes de engravidar, não queria saber de cirurgia pra ter o bebê! E não demorou muito pra eu não querer nem hospital! 

Minha experiência como fotógrafa de parto me permitiu ver vários tipos de nascimento, fora todos os relatos lidos e ouvidos e eu não queria ser obrigada a passar pelos protocolos desnecessários dos hospitais...

Chegou a hora do meu pequeno Diego vir aqui pra fora. Alguns sinais durante a semana... Barriga abaixando, aquelas contrações que parecem só o bebê se esticando, pedaços do tampão saindo...

Na sexta-feira à noite as benditas doloridas! E a doula me avisa que estou nos pródromos... 

Alguém me explica porque os pródromos não são considerados trabalho de parto? Puta merda! Isso dói, incomoda, já não tem mais posição pra ficar, já não dá mais pra dormir... Pra mim, meu TP começou na sexta... 

Perturba a doula o tempo todo pelo zap. E uma das recomendações é relaxar no chuveiro. Eita técnica mais antiecológica... Mas acalma um pouquinho... 

Sábado à noite é que o TP que o povo considera começou. O pai do Diego tentava falar comigo no meio das contrações e eu já não respondia mais nada... Ele ligou pra doula, colocou ela no viva voz pra falar comigo e ela só de ouvir meus gemidos disse: to indo praí.

Doula chegou, depois uma enfermeira, depois a outra enfermeira e depois a fotógrafa. Time completo. Daí minha memória que nunca foi boa, não me permite detalhar tudo que aconteceu muito menos na ordem correta, mas foram horas e mais horas de dor. Passei por todas as posições possíveis e ficava trocando pra ver se alguma melhorava: bola, chuveiro, sofá, rede, cama, banqueta, piscina.... Nada adianta. Cansei de ler que se relaxa entre as contrações, que no meio delas não tem dor. Mentira. Dói pra carái o tempo tooooodoooo.... 

Não tinha posição que melhorasse e na hora da contratação, Piora!!!! Não deixava minha doula desgrudar de mim. Coitada. Não sei de onde ela tira força pra fazer tanta massagem e levar tanto apertão...

E já chegamos no domingo. A bolsa ainda não tinha estourado e tava dificultando a descida do moleque. Enfermeira estourou e vambora. Dor que não acaba mais. E a criança que não desce. São só alguns centímetros do final da minha barriga pro final da minha vagina. Não sei porque a demora... Tava difícil do filhote descer e pra ajudar, na hora da contração, doula e enfermeira usaram rebozo pra ajudar. Uma puxando o pano de um lado e outra puxando o pano de outro com toda força e mais uma dor insuportável.
Galera toda já tava exausta. Teve uma hora que foram todas dormir. Mas eu fiquei tensa com isso e não deixei minha doula descansar muito não... 

E a tal hora da covardia? Pra mim foi no plural. Horas de covardia. Pedi arrego por horas, acho que metade do trabalho de parto. 

Fui de um em um fazendo a cara do gatinho do Sherek e dizendo: "me leva pro hospital?" Doula, uma enfermeira, outra enfermeira, companheiro... 

E ninguém me levou. Ainda bem. rsrs Só não pedi pra fotógrafa... 

Os tais puxos? Não senti não. Não tinha vontade de fazer força e não sabia fazer. Fui aprender a fazer na cama com ajuda da doula e deitada era a posição que mais doía. E a força é a mesma feita quando está com prisão de ventre (na verdade, eu sempre falo que é a mesma força de cagar, mas acho que vão reclamar se eu escrever isso no meu relato de parto)... Parecia que o menino ia sair pelo buraco errado. E as hemorroidas tudo gigante. Putz!!! Depois da cama e de ter aprendido a fazer a tal da força, fui pra banqueta, apoiada na cama e aí sim o moleque começou a sair...

Foi um terror... Nenhum romantismo que eu havia lido e imaginado. Claro que assim que meu filho nasceu e veio direto pro meu colo, os gritos de "aaaaaaaaaaa" deram lugar a um "own meu bebê!"...
Saímos da banqueta e fomos pra cama, fui batizada ali mesmo com um cagadão e uma mijada. 

Pouquinho depois, de volta pra banqueta e pari a placenta. Depois que parou de pulsar, o papai cortou o cordão. 

Daí começou uma parte que eu não sabia, não tinha lido em relato nenhum, ninguém me contou e não vi fazerem nos partos que fotografei pois nessa hora estou com bebê. A enfermeira enfiou a mão lá dentro pra tirar os restos de sei lá o que e isso dói muuuuuuito. Berrei no ouvido da criança. E depois de três "mãozadas" proibi ela de enfiar de novo (o que quase me custou uma infecção pois dois dias depois, levei mais uma mãozada e ainda tinha resto lá dentro apodrecendo). 

E fiquei sabendo também que tinha tido uma laceração (além de um PC de 38, ainda veio com a mão junto). Isso foi meu maior trauma do parto, pois mesmo hoje, 2 meses após o parto, ainda não me recuperei, nem da laceração, nem das hemorróidas. 

Depois do toque, me ajudaram a tomar banho e limparam a sujeirada que eu tinha feito. 

No dia seguinte eu não estava nova não. Mal conseguia levantar de tanta dor na perna e em toda região baixa... Nada lindo, muito dolorido e quase desesperador... É uma pressão muito grande lá embaixo, parece que as vísceras todas vão sair... sentar e levantar é um terror, tossir e espirrar então, nem se fala...
Mas ainda bem que não fui pro hospital pois teria me arrependido. Tudo que planejei, pensando no melhor pro meu filho, aconteceu. Nasceu em casa, no escurinho, no calorzinho, foi logo pro peito, recebeu todo sangue do cordão, não teve todos os seus buracos invadidos por sondas, nem furado, nem esticado no primeiro minuto de vida, nem recebeu aquele colírio ardido... Nada de ir pra berçário, direto pro colinho de mamãe e papai. 

Mamãe: Larissa De Freitas CordeiroPapai: Dante GastaldoniDoula: Cátia CarvalhoEnfermeira Obstétrica: Vivianne SilvaEnfermeira Obstétrica: Jemima FortunatoFotógrafa: Julia Maria Ferreira

Luto...

"O Sensacionalista é um jornal de notícias irreais baseadas na ironia e no escárnio do que é real. Quando um jornal que tem o humor como base se recusa a fazer piada, é porque há respeito. Tristes tempos em que jornais de humor levam a sério a dor humana enquanto a mídia tradicional só a desrespeita e descaracteriza. Louvável iniciativa, digna de seres que se dizem humanos." texto de Ligia Moreira Sena


Doula é um direito da mulher!

Nesta quarta-feira (6) a Alerj votou, em primeira discussão, o projeto que permite o acesso de doulas à maternidades, casas de parto e hospitais da rede pública. A humanização da saúde é uma das coisas que mais precisamos no Rio de Janeiro. Isso se contrapõe à mercantilização saúde, ao lucro acima da vida e à lógica machista e autoritária, que lamentavelmente são hegemônicas na saúde. Esta iniciativa é mais do que necessária!

A proposta recebeu emendas para ser analisada novamente e deve voltar a ser votada em breve.

Assista ao pronunciamento de Marcelo Freixo: https://youtu.be/nseuJT1rTUA


Combate a Violência contra a Mulher

Você sabia que hoje, 25 de novembro, é Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher? Uma data bastante oportuna para refletir sobre algo que nos diz respeito diretamente.

Talvez você não perceba. Talvez até ache graça. Mas a violência contra as mulheres vem sendo banalizada e até incentivada silenciosamente. 

Em forma de humor, duas amigas travam um diálogo dentro de um vagão de trem lotado. Um sujeito se aproxima, encosta e bolina a mulher de várias formas. No episódio do dia 9 de julho, o quadro mostrou a mulher sendo “tocada” em suas partes íntimas com a “batuta” de um maestro.

Estratégias de proteção perineal - por Melania Amorim



Neste vídeo a Obstetra e Professora Melania Amorim divide sua experiência de 13 anos e mais de 500 partos sem episiotomia, e ensina como proceder para proteger o períneo durante o parto normal.



  1. Evitar parto deitada de barriga para cima
  2. Evitar fazer força por comando
  3. Evitar manobra de Valsalva (prender a respiração, trincar os dentes e empurrar ou "força de coco)
  4. Evitar Manobra de Kristeller (empurrar barriga)
  5. Evitar Episiotomia
  6. Restringir parto instrumental (com fórceps ou vácuo extrator)
  7. Hands Off (não tocar no períneo)

Sobre Orquestras e Maestros

Por Carla Andreucci Polido, Médica Obstetra
Texto original publicado em 27 de setembro último no facebook


Enquanto profissionais de obstetrícia acreditarem que a orquestra do parto é regida por eles, e não pelas mulheres, os nascimentos nada mais serão do que procedimentos técnicos.

Em obstetrícia, o processo fisiológico de gestar e parir vai permitir o melhor resultado para a mulher e seu filho, na maioria absoluta dos casos . Acompanhar uma gestação saudável para identificar situações de risco inesperado é a nossa ciência. É verdade que situações inesperadas podem acontecer, mesmo quando tudo transcorre normalmente. Somos treinados para identificar e corrigir tais situações. E também é verdade que intervenções e procedimentos sem indicação aumentam o risco para todos os envolvidos.

A Dor Além do Parto

A violência obstétrica é uma grave violação aos direitos mais básicos da mulher parturiente. Entretanto 1 em cada 4 mulheres sofrem algum tipo de violência durante o período de pré-parto, parto ou pós-parto. 

A Dor Além do Parto pretende servir como veículo de informação e denúncia, constituindo-se num importante instrumento de conscientização dos profissionais do direito e da saúde, assim como das mulheres que pretendem ser mães. Nele, evidencia-se a realidade do parto e nascimento no Brasil através de depoimentos de mulheres vítimas de violência no parto e averígua-se as implicações jurídicas que o assunto possui, bem como as consequências para a vida da mãe e do bebê.


Produção: Letícia Campos Guedes, Amanda Rizério, Nathália Machado Couto e Raísa Cruz. 
Edição: Léo Preto. 
Imagens das entrevistas: Rodrigo Sanches. 
Narração: Priscilla Peixoto