Uma homenagem à mulher-mãe!

"E num dia de bendita magia, numa explosão de luz e flor, num parto sadio e sem dor, é capaz, bem capaz, que uma mulher da minha terra consiga parir a paz. Benditas mulheres." Rose Busko

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Nosso parto natural, o dia que meu filho escolheu

A história do parto de Arthur começa algumas semanas antes, quando entrei em contato com a pessoa que mais contribuiu para que eu realizasse dois sonhos: o parto normal e a amamentação.

Via normal, e não uma operação - era isso que eu tinha certeza sobre meu parto - até conhecer a Cátia Carvalho na 36a semana de gestação, por intermédio de uma de suas pacientes, no consultório de minha médica. Ou seja, havia pouco tempo para a compreensão de todas as etapas do trabalho de parto e das anomalias e aberrações do sistema brasileiro de saúde privado.


As etapas do trabalho de parto 


"A minha bolsa não pode romper antes" - eu disse para Cátia na consulta de meados da 36a semana em sua sala na Pró-Gestante" sou extremamente alérgica a antibióticos e prefiro seu uso, portanto, em última instância". E "Bebê não pode nascer antes de 39a semana pois tem que terminar a obra da casa".

Eu dormia no último dia para completar 40 semanas, quando acordei um pouquinho úmida, pensei "o que é isso? Será incontinência urinária"? Fui ao banheiro e fiz xixi. Voltei a cama e novamente acordei sonolenta e úmida... A bolsa havia rompido?! Será que seria isso? Na minha cabeça a imagem que eu tinha de Bolsa rompida era diferente, ali havia tão simplesmente um fluxo bem suave, mas constante de água. Descrevi via SMS pra minha doula o que estava sentindo e não havia dúvidas - bolsa rompida. Notifiquei a médica também via SMS, não queria telefonar. Ainda eram 5:30 da manhã. Mas nada de contrações.

Voltei para cama e deixei meu marido dormir mais 1h, e quando ele acordou espontaneamente eu lhe contei o que havia acontecido. Tomamos café e logo em seguida pedi para ele me acompanhar numa caminhada leve pelo bairro, queria que as contrações se iniciassem. Lembrava da doula dizendo que caminhar ajuda no trabalho de parto e que caso não se iniciassem as contrações poderia ser o caso de vir a ser necessário usar antibiótico - o que eu não queria devido a alergia. Sabia que eu tinha tempo, mas que começassem logo as contrações. 

De fato uns 30 minutos de caminhada ajudou. Imagine a cena excêntrica, cedinho pela manhã, uma mulher nitidamente ao final da gravidez, andando bem desengonçada apoiada ao marido...

Iniciaram-se as contrações tão suaves que eu nem acreditava. Em casa novamente e aos poucos elas evoluíram. A doula acompanhando via mensagens. Eu afirmava que tudo estava bem, e que não seria necessário que ela viesse logo. Não sentia dores, as contrações eram suaves e altamente controláveis. Disse que almoçaria uma massa com azeite e queijo somente. 

A doula chegou em casa me surpreendendo, pois eu ainda não havia solicitado sua presença. Era um domingo e eu pensava que seria o domingo da minha doula com sua família, enquanto esse mais novo membro ainda estava tão tímido. Mas lembro que foi em boa hora, pois as contrações aumentavam um pouco e achava muito chato contá-las. O tempo passava e ficavam mais freqüentes. Posições diferentes, esticava-me e perambulava pela casa. Tudo em ordem. Não lembro de alarmes. Ela me perguntava se tudo ia bem, eu sempre respondia que sim, e que ainda não eram fortes as contrações. Até depilei a perna também tendo contrações... certamente após o nascimento tempo para isso eu não teria! 

Só lembro de um momento que finalmente as dores chegavam, muita água eu bebia e ia freqüentemente ao banheiro, mais contrações, eu me esticava na rede na varanda, lembro do alívio de me pendurar, e perambulava toda casa. Curtia cada momento confiante que faz parte do nascer.

Até que eu tive fortes contrações e do nada eu não somente fui ao banheiro, quanto vomitei! Super estranho para mim vomitar... Bom Cátia avisou que isso poderia acontecer e eu tinha certeza que não vomitaria pois nem durante a gravidez! O gosto perdurava, pasta de dentes não adiantava. Nada retirava o gosto. Pedi um copo de cachaça, a doula se assustou mesmo e eu a acalmei, dizendo ainda ao meu marido "Pode trazer aquela com gengibre, só gargarejo, só para tirar o gosto que escovar os dentes não está ajudando". O tempo passava e contrações, até que eu disse à doula. "Preciso ir ao banheiro, mas estranho nada sai!" Daí ela falou diretamente ao meu esposo, que durante todo esse processo estava trabalhando em seu escritório. "Vamos ao hospital".

Rumo ao hospital, contrações mais fortes, realmente aquelas que eu tanto aguardava! Minha mente já não estava organizava, poucas palavras, quase nada. Pedi uma música, precisei: 4 estações de Vivaldi. No hospital (HI) as enfermeiras pediram para eu sentar, difícil perceber que fisiologicamente o que elas insistiam era impossível... parecia que nunca haviam visto uma mulher em trabalho de parto! (Recomendo fazer um cartaz, ou uma blusa "Não quero sentar, obrigada!") pouparia um pouco!

Minha médica chegou, havia acompanhado com a Cátia toda a evolução via celular.

A sala de pré parto finalmente estava pronta. Eu já estava com 9cm. Os minutos pareciam eternidade. Lá vou eu na banheira, pensei sozinha. Quente demais! As enfermeiras haviam ligado só a água quente?! Bloqueou um pouco o TP! Meu esposo me ajudou a relaxar, mágico momento, um beijo com carinho e as contrações voltavam! Naquele momento que já era o expulsivo, foram algumas tentativas, finalmente depois de transitar um pouco pela sala e de tentar algumas posições (banheira, chão forrado e cama). Eu lembro da equipe dizendo "falta tão pouco" "o bebê já está vindo, mais um pouco de força". Eu só via os olhinhos da Dra Priscila incentivando, e a força da Cátia e sua voz, além da segurança de ter meu marido lá. 

Extremamente cansativo era me apoiar! Não havia um suporte nem na banheira, tampouco no chão ou na cama em que eu pudesse repousar meu tronco, braços e pernas. Então eu perdia força para me apoiar nas pessoas quando poderia ter focado somente no expulsivo. Enfim, me cansavam as forças para me apoiar já que a sala era uma em que a cama era somente completamente deitada. E já sentia a cabeça realmente forçando, impressionante. Resolvi que ajudaria seu nascimento, pensei na próxima contração, bebê vc vem! Dito e feito. Bebê passou a cabeça. Parou, e simplesmente olhou ao redor, depois resolveu continuar saindo. Sim, isso mesmo que vc leu, nasceu, após 80 minutos de TP expulsivo no hospital. Olhinhos abertos analisando o mundo e quem lhe recepcionava. Rostinho roxo, como é sempre no parto normal, e a Dra Priscila tirou com o dedo o cordão que estava ao redor do pescoço do bebê.

Alívio. 
Alívio inexplicável.

Todas as forças para este momento, para acolhê-lo nos braços, e lá estava ele. O cordão parou sozinho e meu esposo cortou, conforme a recomendação da Dra Carolina. A pediatra e a Cátia nos auxiliaram no primeiro momento da mamada. Nos braços foi revigorante, uma onda de calor, nem acreditava! Entreguei ao meu marido e lembro de pensar "pronto, acabou, bebê nasceu e está bem, não poderia estar em melhor mãos". 

O trabalho ainda não havia acabado, faltava ainda a placenta. Pois é... não lembrava que ainda viria o expulsivo da placenta, essa parte do relato de parto normalmente não é muito falada, ou eu inocentemente ignorava. 

Agora eu não lembro bem o que aconteceu, mas acho que a Dra Priscila começou uma massagem no abdômen para ajudar a saída da placenta (depois fiquei sabendo - eu estava com sangramento intenso). 

Perguntaram ao meu marido qual era meu RH e lembro de pensar "Como assim? Falei tanto!" (Ele diz que só lembrava do "A", mas não sabia na hora se era positivo ou negativo!). Um pouquinho de força a mais para a placenta - a Dra Priscila gentilmente falava... não lembro bem, mas a placenta finalmente saiu. E tudo foi ficando confuso. Comecei a falar "frio,frio", daí entrou o anestesista na cena, quem até agora eu ainda não o tinha visto. Os dois médicos na sala e uma enfermeira que falava alto "E a placenta?!" Eu pensei, "a placenta já foi". Acho que cheguei a falar "não, frio" (placenta já foi mas o frio veio!) Cátia voltou e entregou algo ao anestesista que logo disse que eu teria uma picadinha na perna e outra na mão. Não lembrava de picadinhas nos relatos de parto, mas o que importa? 

Meu filho veio ao mundo no momento que escolheu, no seu e no nosso ritmo, com todos os hormônios naturais, ouvindo Enya, ao fundo chuva tropical, com uma excelente equipe. De uma mãe que nasceu também em parto natural na década de 1980, e que teve as dores e prazeres de assim dar a luz, assim como todas as tantas mulheres, que foram juntamente com seus filhos protagonistas de mais um episódio da vida.

Agradecemos a Cátia Carvalho todo o esclarecimento e apoio neste momento tão simbólico e único. Agradecemos também a Dra Priscila Pyrrho, Dra Carolina Lucas e ao Dr Eduardo.

Bebê, Mamãe e Papai!

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