Uma homenagem à mulher-mãe!

"E num dia de bendita magia, numa explosão de luz e flor, num parto sadio e sem dor, é capaz, bem capaz, que uma mulher da minha terra consiga parir a paz. Benditas mulheres." Rose Busko

sábado, 25 de outubro de 2014

Sobre o nascimento de Maria Isabel, por Gisela Giannerini

Inicialmente, essa escrita era para mim, porque queria manter cada detalhe do meu parto vivo na memória. Logo me dei conta que não poderia chegar ao parto sem passar pela gestação e meu processo de amadurecimento. Tampouco poderia deixar de compartilhar minha experiência depois de tantas outras terem me servido de incentivo. Espero que também a minha história possa servir de esteio para outras mulheres que desejam viver seu parto de forma íntima e respeitosa, no tempo natural da vida.

Posso dizer com firmeza que a gestação chegou para mim abrindo horizontes, inaugurando possibilidades e novos sentimentos, mostrando-me que começava ali uma jornada rumo ao novo.



Essa era a única certeza que eu tinha. Eu abri os braços, o coração e me joguei nessa caminhada com desejo, garra e alegria pelo que estava por vir. Assim foram os últimos nove meses, uma avalanche de sentimentos e de busca por informações. Logo procurei o médico que eu sonhava ter minha filha, Dr. Rodrigo Vianna. Ele não estava recebendo novas gestantes na época, mas depois de alguns emails, me recebeu com um sorriso no rosto, um abraço e as mãos já solidariamente estendidas para dividir comigo essa experiência – cena que se repetiu em todos os dias que nos encontramos durante o pré-natal. Através dele, cheguei à doula que me acompanharia integralmente com todo amor e cuidado, a querida Cátia Carvalho.

Ambos os encontros me encheram o coração de conforto, pois reconheci neles as pessoas que queria e precisava ao meu lado. Com essas escolhas, eu tecia a minha caminhada e meu desejo por um parto natural e humanizado. De saída, já contava com algo que marcava minha história que era uma alergia severa à anestesia, o que anos atrás me rendeu um choque anafilático. Logo, anestesia ou a possibilidade de qualquer intervenção medicamentosa no parto era algo que me apavorava. O pavor me encheu de forças, fiz dele motor do meu desejo de me preparar e buscar o que eu queria, um parto natural. Assim começou a minha história e a seguir conto como tudo aconteceu. 

Como esse relato ficou extenso, ele começa pelo final com os agradecimentos. Começo agradecendo imensamente ao Dr. Rodrigo Vianna por toda gentileza, respeito e cuidado com que esteve ao meu lado assistindo meu parto. De longe uma das pessoas mais humanizadas que conheci, que com toda sua discrição e disponibilidade não hesitou em esperar horas a fio o tempo necessário para que eu pudesse parir e minha filha pudesse nascer. Pouco ouvi sua voz, muitas horas se passaram no trabalho de parto e eu não recebi qualquer sugestão ou orientação de fazer nada de fora da minha própria vivência. Aquele momento foi inteiramente ritmado pelo que meu corpo pedia, e ele estava ali comigo, sentado no chão em silêncio, esperando. Por vezes me deu a mão dizendo que eu podia fazer aquilo, com um beijo na testa de conforto e apoio. Dr. Rodrigo, toda minha gratidão pelo dia que você cruzou meu caminho e me respeitou inteiramente do início ao fim, consentindo e apostando que eu seria a protagonista principal do meu parto. Meu eterno carinho pelo ser humano maravilhoso e ímpar que você é na vida.



Agradeço a Cátia Carvalho que despertou em mim questões que me fizeram ler, estudar, correr atrás e me cercar de informações sobre o que estava por vir. Obrigada por ser tão forte, certeira e honesta com as coisas que acredita, me transmitindo segurança e força para acreditar que nada fazia do caminho que eu trilhava algo extraordinário. O que eu buscava era justamente um retorno à vida em seu estado mais simples e natural, um retorno ao funcionamento do corpo e da natureza feminina que por anos vêm sendo subestimados em nome da ciência. Suas palavras, suas mãos, sua segurança e sua presença foram fundamentais para eu conseguir o que eu desejava. Essa história poderia ter sido outra se não fosse você firmemente ao meu lado. Por vezes me vem o sentimento de que eu gostaria de uma doula para a vida, e isso tem a ver com você exclusivamente, com toda sua capacidade de apoiar e estar perto de mulheres em seus momentos mais significativos, dando suporte com todo carinho, dedicação e tranquilidade que lhe são característicos. Hoje posso dizer com clareza que o que quero é você em minha vida, dividindo novos momentos importantes como esse. Somente sendo uma guerreira na vida, como você, é possível convidar outros a seguir em frente e não vacilar diante do que se quer. Porque nós, mulheres, podemos parir e esse foi um dos maiores ensinamentos de vida que recebi de você. Do nosso encontro, sigo eternamente marcada por isso!



No dia 24 de agosto, teve início o processo de transformação mais profundo e desconhecido dessa caminhada. Eu que esperava, calma, ter ainda alguns dias curtindo meu barrigão de grávida, vi tudo mudar ao sentir o rompimento da bolsa às 20:30h da noite de um domingo. Esse acontecimento foi uma surpresa e me dei conta que fiquei feliz, com um frio na barriga e uma vontade de rir (nervosinho?), mas estava tranquila. Respirei fundo para entrar no meu trabalho de parto.



Não demorou para começar. Logo 1h30 depois da bolsa romper vieram as contrações. Eu sempre consegui imaginar como seria minha filha, como seria a vida com ela, mas esse momento entre ela estar na minha barriga e fora dela, o parto em si, sempre me foi desconhecido. Hoje me dou conta que não se sabe falar de parto até parir. Mesmo agora, não sei quão próximo da experiência consigo chegar com palavras.



Avisei a minha doula e ao meu médico que a bolsa havia se rompido e ambos me responderam animados que esperaríamos o trabalho de parto engrenar. As contrações começaram fracas, irregulares, e com o passar das horas ganharam ritmo e intensidade. Fiquei deitada em minha cama, caminhei pela casa, cantei, tomei banho. A cada contração pensava que se aproximava o nascimento da minha filha. Às 3h, tudo ficou muito intenso e decidimos ligar para a doula que desde o início foi uma das pessoas mais disponíveis que já conheci na vida. Ela chegou em menos de meia hora e com ela chegou também mais um respiro e tranquilidade. As contrações se ritmaram novamente de forma mais organizada, e as massagens na lombar feitas por ela foram um alento em meio a dor que só aumentava. Passamos horas, ela, eu e meu marido, sentados em meu quarto conversando, rindo, ouvindo música e silenciando ao ritmo das contrações. As horas passaram sem que eu me desse conta até ver o dia clarear. Acontece um grande desligamento do mundo e uma ligação intensa com esse momento. Acredito eu que um processo fundamental para que seja possível parir.

O dia amanheceu e por volta das 8hs o trabalho de parto havia progredido muito, as dores já estavam intensas. Decidimos ir para a maternidade para lançar mão da banheira como uma possibilidade de alívio da dor. Cátia levou a banheira e uma música boa que foram fundamentais para eu me tranquilizar. Para nossa surpresa, já cheguei à maternidade com 7 para 8cm de dilatação, ainda que o bebê estivesse alto. Subimos para a sala de parto humanizado e entrar na banheira me deu um conforto que eu não acreditava ainda poder sentir àquela altura. As contrações também traziam o descanso, me permitindo relaxar e dormir nos breves, porém impagáveis, quatro minutos de intervalo entre as dores. Logo Dr Rodrigo chegou também e ficamos todos ali esperando o processo do parto. Em um exame de toque, Dr Rodrigo observou que a bebê não estava com a cabeça encaixada corretamente e eu já estava com 10 cm de dilatação. Seguimos aguardando ela encontrar seu melhor caminho para nascer e, com isso, as dores aumentando muito.
Mesmo com o conforto da água, era preciso que em algum momento eu abrisse mão disso para que pudesse parir, já que as contrações estavam se espaçando um pouco. Foi quando sai da banheira e não tive mais posição em que não sentisse dor. Abaixei, levantei, mexi e me angustiei achando que nada acontecia. A minha calma começou a disputar lugar com a angústia, ouvi do Dr. Rodrigo e da Cátia que era preciso jogar com a dor e não tentar evita-la, deixando o corpo se abrir e trabalhar. Eu já estava exausta depois de tantas horas acordada, vomitando sem parar com as dores das contrações. Foi então que, sabiamente, Dr. Rodrigo me convidou a sentir a cabecinha de Bebel perto de sair. Aquilo foi uma injeção de gás revigorante. Foram aproximadas 1h30 de período expulsivo depois de contrações que pareciam romper a minha lombar. Chegamos à maternidade às 11h da manhã e minha filha nasceu às 16:04h, me enchendo de felicidade e surpresa, eu extasiada que estava com o milagre do nascimento. 

Da cena que não me sai da cabeça e que me marcou a existência, lembro da Cátia em cima da cama segurando o lençol improvisado que me servia de apoio para fazer força junto com as contrações, o Rubem, meu marido, sentado em uma escadinha me oferecendo suporte físico, o pediatra ao canto em silêncio, eu de cócoras e Dr. Rodrigo deitado no chão embaixo da cama para acolher minha filhota assim que ela nascesse. E assim foi, Dr. Rodrigo recebeu Maria Isabel em suas mãos e imediatamente a conduziu aos meus braços com um sorriso no rosto. Ela veio ao meu encontro séria, de olhos bem abertos e fixos, a boquinha vermelha, chorando lindamente em seguida. Não foi limpa, aspirada, esticada ou afastada de mim. As boas vindas à vida demos eu e meu marido em um abraço forte e coletivo, como ele bem descreveu. Ficamos ali encantados por aqueles olhos sérios que nos examinaram cuidadosamente por alguns instantes até chorar. Nasceu com 3,545kg e 50cm, uma circular de cordão apertada que não fez a menor diferença em nossas vidas. O cordão foi cortado pelo pai após parar de pulsar e o pai parar de chorar. 


Depois de 20hs de bolsa rota e contrações das mais variadas, eu não sofri intervenções quaisquer, não fiz uma cirurgia, não levei cortes, não levei pontos, não levei analgesia e tampouco anestesia. Levei dali a experiência mais singular que vivi na vida. Pari da forma mais natural que existe e de tudo, a única intervenção que recebi foram jujubas coloridas ao final. Assim que as recebi, agradeci e tive a dimensão da poesia e do privilégio que foi estar com pessoas maravilhosas comigo colaborando para que esse momento fosse especial, natural e único. Digo com tranquilidade que, de fato, pude viver a única dor que não teve a ver com sofrimento! É a única dor que temos vontade de sentir.

Por fim, entrei naquela sala de parto escura, quentinha e tranquila uma pessoa e sai outra ao final do parto. Agradeço imensamente por contar com um companheiro tão parceiro e solidário, que viveu comigo cada dor, cada contração, cada medo, sem vacilar em momento algum no que escolhemos para o nascimento da nossa família. Desde o início, você veio comigo nessa caminhada também fazendo o seu percurso e se cercando de informações que ajudassem a elaborar a construção da nossa escolha. Rubem você foi incrível! 

Quero agradecer aos amigos e familiares que me aguardavam do lado de fora com afeto, sorrisos e lágrimas, esperando pacientemente o meu renascimento e o nascimento de Maria Isabel para a vida. Obrigada a todos vocês pela parceria e amizade!

2 comentários:

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  2. Parabens pelo lindo parto. Quanta sorte vc teve de conseguir parir com esse médico. Infelizmente ele é uma farsa! Já fui cliente dele um dia e tenho vergonha disso! Cai bonito no conto do medicozinho humanizado. Mesmo sabendo q essa msg será apagada, quero chamar atenção para muitos casos tenebrosos de partos com ele...nao da pra apagar tantos absurdos que ele é capaz: mentiras, falsos, diagnósticos...procurem no google e frequente os grupos de gestantes...

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