Uma homenagem à mulher-mãe!

"E num dia de bendita magia, numa explosão de luz e flor, num parto sadio e sem dor, é capaz, bem capaz, que uma mulher da minha terra consiga parir a paz. Benditas mulheres." Rose Busko

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Relato do segundo parto de Caroline Alves

Agradecida por ter encontrado tantos relatos de parto na internet, gostaria de retornar a generosidade. O parto é recente, e este relato está bem apaixonado e íntimo. Deve ter uma razão para ser assim!

Parece que eu acabei de chegar de uma viagem.

Meu primeiro parto foi em 2009. Tenho uma filha de 4 anos que nasceu de parto normal com anestesia peridural depois de 34 horas de contrações. O obstetra havia preparado tudo para um parto humanizado, mesmo nós estando no centro cirúrgico de um hospital convencional de Niterói. Ele me internou quando eu pedi e esperou, alegre e pacientemente 10 horas durante a madrugada no hospital, sem cogitar qualquer tipo de indução. “Ela vai encaixar... é só esperar”... quantos outros médicos teriam pensado assim? Trouxe a sua equipe, o CD de música clássica, o rádio portátil... Afastou a cama, forrou os lençóis no chão e improvisou uma banqueta com a escadinha da maca. Foi ele quem apagou as luzes e escolheu o anestesista que aplicou uma dose respeitosa de anestesia, que me possibilitou movimentação livre, e assim nasceu a Isabel de cócoras na escadinha... Um obstetra carinhoso, que se emociona, cheio de confiança, paciência e fortaleza. Ele ama o que faz, ama suas pacientes e ama o nascer. Na sua presença, era impossível duvidar. No seu cartão de visitas está escrito “parto humanizado”, quem tem essa coragem? Esse parto foi marcado por muito carinho. Eu era a única mulher na sala de parto e ainda assim experimentei compreensão e acolhida genuínos. Obrigada Dr. Rodrigo Vianna!


Com a segunda gravidez e mais um pouco de informação, decidi que o parto da minha segunda filha seria natural. Sabendo dos benefícios indiscutíveis do parto natural para a saúde da mãe e principalmente do bebê, para mim, o parto natural não era mais uma escolha. Fazia parte da minha tarefa para com esse ser que convidamos a vir para esse mundo. Meu bebê merecia também ter uma escolha. A escolha de quando e como nascer. O direito de se esperar por ele. Mas também tinha outra coisa. O meu desejo íntimo de querer saber o que é isso, esse segredo, que iguala todas as fêmeas e esse destino pensado para cada ser humano que nasce mulher. Decidi que, nesta vida, iria parir como a natureza planejou para a mulher. Conversei com a minha avó de 85 anos, a última geração da família a ter parido naturalmente e ela disse: “ah, minha filha, não faz isso, não. Hoje em dia, sentir aquela dor...”, cheia de amor e pena de mim, mulher como ela.

Aí procurei a doula Cátia, enérgica, desafiante, que me disse: “Mas e porque você acha que não é capaz de ter um parto natural? Fomos feitas pra isso. E se eu e todas as mulheres antes de mim pudemos, então você também pode. O que separa você de seu parto natural é sua fé em si mesma e em sua natureza. Então, um parto natural? Eu acredito que você consegue - a pergunta é: e você, acredita?”. Esse desafio, quase uma provocação , que me deixou mais curiosa, mas também cheia de confiança.

Na noite de quinta-feira antes da Páscoa, a roda começou a girar. A Cátia me deu todas as informações necessárias do que esperar e quais sinais observar ao telefone, às 1:30 da manhã, quando a acordei por causa de leve vazamento de líquido da bolsa... Quando as contrações começaram, vimos que estava próximo e às 12:30, com contrações já de 1 minuto a cada 2, chegamos ao hospital por indicação certeira da Cátia (“o segundo é mais rápido...”). Já estava com 6 para 7 cm de dilatação! Que vitória, em comparação ao primeiro parto, tão demorado! Ela me assegurava: “vai ser rápido, falta pouco!” Quanto?, eu queria saber... para diversão do pediatra Dr. Pedro Angelo e da obstetra Dra. Nathalia Neves, lindamente indicados pelo Dr. Rodrigo para cobri-lo na ocasião da sua viagem. Quanto falta? Eu queria ter o mínimo de controle, eu queria racionalizar. Na maternidade, decidimos pelo parto no quarto comum. A obstetra organizou a banqueta, o berço pediátrico. Foi a Cátia que trouxe a banheira, o bolão, os óleos de massagem e estou me lembrando agora, organizou uma música. Cátia, da onde vinha aquela música bem no banheiro? Depois você me conta como conseguiu isso! Foi ela que trouxe a Pulsatilla na hora em que me viu esmorecer. Eu queria tanto esse parto, mas eu me lembro de esmorecer, da dúvida, a exaustão e o medo. E me lembro do efeito das palavras mágicas da doula, sussurradas, que remetiam a uma força feminina ancestral, sendo naquele momento, resgatada. No mergulho profundo do parto, brotaram palavras e gestos que mulheres já usavam com as outras a partir do momento em que a primeira criança foi parida nesta terra, pela primeira mulher que existiu. E quando o parto era uma ritual, uma cerimônia fisiológica dominada pelas mulheres e compartilhada pelos tempos. Aí eu não racionalizei mais. Foi como abrir uma porta para dentro de você e você se reencontra. Esse encontro transcende cultura, mentalidade, época. É um lugar primitivo presente em todas as mulheres, onde habita a natureza feminina de dar luz à vida. 

E ali, convivendo com esse mistério, dois profissionais que foram um presente. A obstetra carinhosa e segura, permitindo o parto acontecer. Uma obstetra que observa com alegria e vibra com as notícias: “Está com 9 a 10 cm!”, “O bebê está ótimo!”. O pediatra que durante o parto respeitosamente assiste, seu olhar masculino está cheio de compreensão e confiança. Aí o milagre acontece, o bebê vê a luz do dia, chega neste mundo como ele decidiu e é recebido num ambiente de amor. Nasceu de cócoras, com 49 cm e 3.330kg, às 15:24 de uma sexta-feira santa. Os médicos não tiveram pressa, abdicaram de qualquer intervenção pós-parto convencional tanto na mãe como no bebê, o cordão pulsou até não querer mais, a bebê mamou e muito, com ajuda das mãos ágeis da doula. Na alta, mais abraços e sorrisos, acho que cada um que estava naquele quarto levou um pouco de vida para casa. Obrigada Dra. Nathalia, pelo acompanhamento humano e confiança no acontecer da vida! Obrigada Dr. Pedro Angelo, pelas orientações éticas e um olhar pediátrico cheio de amor e respeito! 

Hoje, em casa com as minhas duas filhas saudáveis e felizes, eu me considero uma mulher de muita sorte por ter encontrado todas essas pessoas no meu caminho. Por não acreditar no nosso sistema, meu marido e eu tentamos criar um universo paralelo através de informação e busca por profissionais confiáveis e de opinião semelhante a nossa. Esse ano já está tristemente marcado por acontecimentos desrespeitosos com as mulheres e o seu direito de parir. Mas do sofrimento público de uma mãe brotou uma discussão madura sobre o parto na nossa sociedade e confesso que retomei a fé. Porque eu acredito que parto humanizado independe do local, cores das paredes, marca da roupa de cama... Ele precisa acontecer num ambiente humano. Nos meus dois partos constatei isso. Profissionais respeitados e experientes, com carreiras consolidadas e muitos compromissos, estavam ali, acima de tudo, como seres humanos, assistindo com compaixão o desenrolar da vida de outras pessoas. Colocando o seu ato médico à disposição da realização pessoal e decisão particular de outros indivíduos. Na minha opinião, um ato obstétrico maduro e auto-confiante, um parto feliz.

Por fim, obrigada Cátia! Por defender essa sabedoria sobre a natureza e a alma femininas, por revelar esse segredo e trabalhar guiando mulheres de volta a elas mesmas. Por nos relembrar que carregamos a vida, e como ela acontece!

Caroline Alves

2 comentários:

  1. Me trouxestes lagrimas aos olhos e uma imensa alegria ao coracao, PARABÉNS MULHER !!!! É imensamente lindo passar por esta experiência.....bjos em todos VCS!!

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  2. Caroline, já li seu depoimento umas 5 vezes! rsrs. Estou com 26 semanas e trocando de obstetra. E vc com sua história, me ajudou e ajuda muito, toda vez que fico insegura leio seu depoimento. O Dr. Rodrigo também me indicou a Nathalia Neves. E também estou com a Catia. Parabéns pela sua história, desejo muito estar também dando o meu depoimento de um parto feliz e humanizado.
    Obrigada!
    Ana Paula

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