Uma homenagem à mulher-mãe!

"E num dia de bendita magia, numa explosão de luz e flor, num parto sadio e sem dor, é capaz, bem capaz, que uma mulher da minha terra consiga parir a paz. Benditas mulheres." Rose Busko

sábado, 5 de abril de 2014

Escolha informada, por Camila Sant'Anna

Queria engravidar desde os 15 anos. Nasci pra ser mãe e sabia disso. Com 15 achava um pouco cedo, estava no colégio ainda e tinha um namorado que não podia nem me ouvir falar disso (lógico!!!), terminei o colégio - e o namoro - e entrei pra faculdade, minha vontade de ser mãe só aumentava ao longo do tempo e estando na faculdade achava que era mais tranquilo, mas ainda assim tinha um namorado que não topava. Terminei a faculdade, passei pro mestrado e consegui um emprego, nada mais me impedia de engravidar, terminei novamente um namoro e quando comecei o seguinte todos os papos giravam em torno de casamento, filhos, vida junto. EU TINHA ACHADO O CARA CERTO. Decidimos deixar a natureza agir no meio de 2011, achando que engravidaríamos no começo de 2012. No mês seguinte a menstruação não veio, dois exames - um de farmácia e um de sangue - deram negativo, ficamos frustrados... mas numa ultra veio a confirmação. ESTAVA GRAVIDA. Eu estava vivendo o sonho da minha vida, o momento pelo qual eu tinha esperado desde que me entendo por mulher. A cesariana não existia pra mim, eu nem sabia quais eram as indicações, mas achava que Deus guardava aquilo para as que não queriam parir. Eu era saudável, eu queria, logo, eu podia.

Nunca ia imaginar a máfia que se tornou o parto nesse país. As mentiras, as violências, as frustrações... fui descobrindo esse mundo conforme a gravidez foi evoluindo. Troquei de obstetra três vezes. Queria uma mulher, mas quase com 3 meses, nenhuma das indicações que eu pedia fazia parto normal!!! Em que mundo nós vivemos? Acabei aceitando um homem, professor do meu marido na faculdade de medicina, ele ensinava o parto como um evento fisiológico e natural, dizia que era um parteiro e que só atuaria em caso de necessidade, mas que na maioria dos casos acontecia de forma natural, disse que se tudo corresse bem o meu marido podia aparar o bebe. Saí de lá confiante.
A gravidez foi passando e em todas as ultras meu bebe estava pélvico, mas eu nunca achei isso um problema, o meu GO dizia pra mim que ele tinha feito muitos partos pélvicos e eu não entendia qual era a diferença. Pélvico ou cefálico, eu ia parir de qualquer jeito.
Com 30 semanas aproximadamente eu resolvi fazer exercícios pro meu bebe virar, já que me diziam que pélvico nascia com mais dificuldade... eu comecei a estudar sobre isso, e pra que eu fui estudar? Percebi que o buraco era muito mais embaixo. Li artigos dizendo que o índice de mortalidade era igual pro parto ou pra cesárea, mas que o de morbidade era maior no parto. Fiquei com medo. Não queria ser responsável caso algo acontecesse ao meu filho, não queria colocar o meu sonho de parir acima do meu filho.
Continuei com os exercícios. Com 34 semanas eu falei com o GO sobre a VCE. Ele disse que tinha feito e que poderia fazer, mas que a experiência dele dizia que na maioria dos casos não funcionava. Deitei na maca e ele mexeu bastante no meu bebê, a cabeça encaixada debaixo da costela esquerda e o bumbum encaixado no osso da bacia, do lado direito. Ele me falou que assim era mais difícil virar, que o ideal era que o bumbum dele estivesse no meio. Falou pra eu esperar mais, que com essa idade gestacional ainda podia virar espontaneamente. E foi nessa consulta a primeira vez que ele falou sobre uma cesariana. Disse que se permanecesse pélvico teríamos que repensar. Falou que fazia partos pélvicos, mas que eram mais arriscados. Então Eu comecei a fazer acupuntura, fazia todo dia, intervalo de dois, fazia novamente... com 36 semanas eu pedi pra fazer uma consulta com o obstetra auxiliar, queria conhecer a equipe antes, queria comunicar ao outro obstetra das minhas decisões - sem ocitocina, sem analgesia, bebe comigo no primeiro instante de vida e sendo amamentado na primeira hora - (hoje eu percebo que até o ultimo momento eu continuei como se fosse parir). Ele se mostrou um pouco avesso às minhas ponderações, com frases como "mas pra que isso? Você quer sentir dor? Você tem a opção de não sentir dor..." e eu dizia "não quero sentir dor, quero ter o direito de escolher em que momento eu vou ser anestesiada OU NÃO caso eu não ache necessário". Aproveitei pra pedir pra ele ver a posição do bebe na barriga, pra eu conferir se a acupuntura tinha dado certo. Qual não é minha surpresa quando ele apalpou minha barriga e disse que SIM, O BEBE ESTAVA CEFÁLICO. Apesar de ter gostado do que ouvi, no fundo eu achava estranho, já que eu sentia o bebe da mesma forma sempre e achei que se ele tivesse virado com o tamanho todo que ele já tinha, eu teria sentido... bom, de qualquer forma, eu tinha uma ultra marcada para 38 semanas (o auxiliar pediu).
Fiz a ultra, e lógico, estava pélvico ainda. Não tinha mudado absolutamente nada. Sentado da mesma forma, na mesma posição desde a ultra das 20 semanas!!! Fiquei triste. Meu marido perguntou se eu queria comprar mais charutos para continuar a moxabustão, eu disse que não. Eu tava cansada daquilo tudo, cansada dos exercícios, cansada de ficar fazendo acupuntura toda noite, cansada da barriga, cansada das pessoas, cansada dos grupos de apoio que me diziam para fazer um parto pélvico, cansada de mim. Fui pra casa e chorei, chorei, chorei... não era possível, eu tinha tido uma gravidez perfeita. Nenhuma alteração de pressão, nenhum exame de sangue alterado, nenhuma circular de cordão, bebe perfeito, saúde perfeita, não era possível que eu seria privada da experiência de parir. Eu não acreditava, aquilo não era pra mim, porque eu estava sendo condenada a isso? Tantas e tantas mulheres no mundo querendo uma cesariana e logo EU tinha sido premiada com 3% das estatísticas??? Resolvi falar mais uma vez com meu GO sobre a VCE. E decidi também que se algo ainda podia dar certo, era pela fé. OS exercícios e a acupuntura não tinham adiantado, então eu decidi passar o resto da gravidez rezando um terço por noite com o quadril elevado. Coloquei minhas esperanças na única coisa que me restava. conversei bastante com Nossa Senhora e pedi pra ela fazer o que fosse melhor pro meu bebe e não o que fosse melhor pra mim. Se fosse pra eu parir, que ele virasse, se não virasse, eu ia aceitar a cesariana. Foi uma escolha consciente. Difícil, porém consciente.
Eu fazia 38 semanas durante a semana santa e pra completar era a virada da lua cheia. Achava que meu bebe ia nascer na páscoa, tudo ajudava pra isso... era a lua, era o feriado católico, meus sogros que moram em outra cidade estavam na nossa casa.. ficou todo mundo esperando... durante essa semana eu faria outra consulta e conversaríamos novamente sobre a VCE. Só que no meio da semana a secretária me liga dizendo que como o meu GO só atendia em Niterói as sextas-feiras, naquela sexta - da semana santa- ele nao atenderia e que era pra eu fazer a rotina com o auxiliar, que atendia no mesmo consultório, na quarta. Pois bem, fui e falei com o auxiliar sobre a VCE. Ele me disse que não fazia, que tinha feito uma vez só na faculdade e que não arriscava fazer de novo, que era pra eu falar na semana seguinte com o meu médico.
Pois bem, eu falaria. Se não fosse um porém... de quinta pra sexta eu perdi meu tampão. Era de madrugada e eu fiquei com medo de não conseguir dormir... tinha lido relatos onde as contrações começavam logo após a perda do tampão (foi assim com a minha mãe inclusive) e pra piorar tudo SEMPRE acontecia de madrugada... mas não foi assim, eu dormi bem, da maneira como uma gestante de quase 39 semanas pode dormir bem, né? Mas nada de contrações. Quando acordei no dia seguinte, reclamei com meu marido de não sentir nada e ele me alertou que minha barriga estava ficando dura. Fiquei chateada pois não doía nada, então deviam ser contrações de BH. Alias, eu reclamei a gestação inteira de não sentir essas contrações. A barriga ficava dura, mas se eu não estivesse com a mão nela, eu não sentia.
Fomos tomar café da manhã e as contrações começaram a mudar, começaram a fica doloridas, uma dor que parecia percorrer meu corpo, como uma descarga elétrica, ainda fraca, mas muito gostosa. eu estava tendo contrações!!!! Tomamos café e a cada contração eu avisava ao marido, quando terminou eu percebi que elas estavam vindo a cada cinco minutos e a intensidade ia aumentando. Ligamos pro médico pra avisar, ele pediu pra eu descansar e ligar novamente caso algo mudasse, alguma perda de sangue, de líquido, ou se eu sentisse muita dor, fora isso nós tínhamos uma consulta marcada para as 16h.
As contrações ficaram doloridas, vinham com intervalo regular... ao longo do dia esse intervalo variou entre 5 e 10 minutos e a intensidade delas variava também, mas era muito diferentes das de BH, eu SABIA que eram contrações de verdade.
As 16h fui pra consulta, o meu GO me examinou, estava tudo perfeito, o coração do bebe estava batendo bem, a contração durava em tornos de 45s a um minuto. Ele falou que tinham se iniciado os trabalhos. Que ali eu tinha que decidir o que eu queria, ele me disse que era uma indicação de cesária, mas que ele sabia fazer o parto se fosse necessário. Eu aceitei a indicação de cesariana. Tinha lido bastante, e tinha decidido que não queria correr nem 1 % de risco a mais, eu já tinha ficado nos 3% que tem um bebe pélvico a termo, não queria correr o risco de ter uma DCP. Ele me falou ainda que eu podia fazer a cirurgia naquela noite ou se eu preferisse ele podia me internar e eu esperaria o trabalho de parto evoluir até onde eu achasse que estava bom, e aí no dia seguinte de manhã ele me avaliaria novamente. Eu optei pela primeira opção, já estava cansada, já estava sentindo dor, já tinha esperado meu filho dar o sinal dele de que estava pronto pra vir ao mundo, não conseguia achar motivos dentro de mim pra esperar mais, eu queria ver meu filho, queria mudar o disco, queria passar de uma gestação onde eu não tinha conseguido parir para o meu sonho de ser mãe.
Ele falou pra eu voltar pra casa, e me arrumar com calma e ir pra maternidade que ele me encontraria lá em duas horas. fui pra casa, fiz a unha, cortei o cabelo do meu marido, avisei a família.

Meu bebe nasceu as 21:22 de uma sexta-feira 13, em abril de 2012. Mamou na primeira hora, ainda no CC. Nasceu bem, saudável, com 47cm 3080g e Apgar 9/10/10. Foi a experiência mais rica da minha vida. Não me arrependo da minha escolha, apesar de não ter sido o que eu sonhei. Jamais me perdoaria se não tivesse buscado fazer o melhor e naquele momento o parto não me pareceu o melhor. Infelizmente.

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