Uma homenagem à mulher-mãe!

"E num dia de bendita magia, numa explosão de luz e flor, num parto sadio e sem dor, é capaz, bem capaz, que uma mulher da minha terra consiga parir a paz. Benditas mulheres." Rose Busko

segunda-feira, 24 de março de 2014

Meu relato de Parto Natural Pós Cesárea, por Lilian Lopes

Não optei por parto natural de uma hora para outra. Foi um trabalho longo de desconstrução e reconstrução de valores, de busca por informação válida, de constante (re)formulação acerca do que eu desejava e não desejava para o meu segundo parto. Num país cesarista como o nosso, com taxa de cesarianas beirando 90% nos hospitais privados e acima dos 40% nos hospitais públicos, buscar essa reformulação de valores não é tarefa nada fácil.

Sou filha de médico e ambiente hospitalar nunca me assustou. Meu pai é médico de uma geração que realizava parto natural (década de 80, lembram?!). Ops, quem “realiza” o parto natural é a mulher, já ia me esquecendo... O médico está ali, se preciso for! Pois bem, cresci indo ver bebês na maternidade quando meu pai ia visitar pacientes. Aos nove anos, pedi para o meu pai me levar ao trabalho dele. Ele tinha uma cesárea (indicativa!) e eu assisti tudo sem traumas. Pensei em ser médica até, mas as letras falaram mais fortes. Mas, se aos nove anos uma cesárea não me traumatizou, não seria no meu primeiro parto que ela me traumatizaria, certo? Errado! Foi no meu primeiro parto que a cesárea me machucou. Simplesmente não fez sentido! Se eu sempre me posicionei pró-atitudes naturalistas, se eu sempre acreditei no que é bom, natural e saudável, uma cesárea não encaixava e mim, retumbava como algo sem sentido dentro de mim. E não fez sentido por vários motivos...


Primeiramente, ao longo da mina primeira gestação, eu “entreguei” tudo nas mãos do médico e equipe. Por despreparo e falta de informação, eu estava longe de perceber que tudo dependia de mim, que o obstetra não podia e não devia se tornar o sujeito central dessa história. Mãe de primeira viagem, eu tinha outras preocupações não menos importantes - como amentar, cuidados com o bebê... Não tomei as rédeas do meu próprio parto. Concordei com a máxima de que parto normal é aquele que corre normal, seja natural ou cesárea. Acontece que, hoje em dia, por tão pouco tudo é indicação de cesárea, não?

Enfim, a cesárea foi marcada para a semana 39, longe ainda da possível semana 42. Não combinamos nada com Catarina e ainda assim ela decidiu nascer na véspera do “agendado”. Tendo entrado em rápido e franco trabalho de parto, eu já estava com dilatação 7 para 8 em apenas 4 horas. O médico optou por uma cesárea. Oi?! Até hoje não sei avaliar a conduta dele, pois havia quantidade significativa de mecônio, uma das indicações de cesárea, dependendo de alguns fatores. Mas com dilatação 7 para 8, cesárea faz mesmo sentido?! De fato minha filha não nasceu bem, com Apgar 4. Mas não nasceu bem por conta do mecônio ou por conta da marcha ré que sofreu com a cesárea? Não sei e não vou saber nunca! E agradeço a Deus todos os dias pela saúde plena da Catarina.

E a pulga atrás da orelha cresceu! Como pensava em engravidar logo, tratei de me informar, de ir atrás das pessoas que tinham passado pela experiência de um parto natural. No meu ambiente de trabalho, composto por mulheres essencialmente, apenas uma me incentivou de fato. O discurso pró-cesárea é muito bem argumentado e internalizado pela grande maioria das mulheres brasileiras. Parece que sabemos de cor, quase um mantra. E eu continuava a me indagar, “Se minha mãe, uma geração anterior apenas, pariu 3 filhos por parto normal, como assim eu não sou capaz?” Aí é que está! Somos capazes de nascença (salvo exceções), fomos programadas para isso. “Nós mulheres sabemos parir! Nós mulheres gostamos de parir!” Mas eu só percebi isso após conseguir o meu parto natural...

Ao longo do caminho, concordei e discordei de algumas diretrizes. Encontrei alguns discursos que na ocasião julguei muito radicais e isso não me parecia bem. Eu desejava o meio termo, a balanced approach. Hoje entendo que esse meio termo que eu buscava já era uma justificativa para o meu possível fracasso. Tinha dentro de mim ainda que tentaria o parto natural sim, e se não conseguisse ok, mas, na verdade, eu duvidava da minha capacidade de aguentar a dor. Ah, a dor! Essa eu já conhecia da gravidez de Catarina. Hoje, após ter passado por um parto natural em todas as suas etapas, sem nenhuma anestesia, eu conheço a minha dor do parto. E a minha dor de parto dóiiiiiii. Porém, só hoje entendo o que tanto tentaram me explicar ao longo do caminho: é dor, não é sofrimento.

Uma das melhores atitudes que tomei foi a de buscar ajuda de uma doula. Foi um divisor de águas, um antes e depois. Se uma gestante deseja ter parto natural no Brasil hoje, acho de vital importância que ela comece se identificando com alguma doula. O entendimento acerca de tudo que gira em torno de partos/nascimentos/recém-nascidos no Brasil será mais fácil e prazeroso. Mais importante ainda, a busca / conquista do parto que se deseja será infinitamente mais fácil. Ter uma doula ao meu lado ajudou a mim e ao meu marido a criar uma força conjunta ao longo do último trimestre da nossa segunda gestação. Tomamos fôlego para seguir em frente com tranquilidade e clareza!

Posso dizer que passei o trabalho de parto em casa e que apenas o nascimento foi no hospital. Não planejava ter parto domiciliar, desejava apenas ficar o máximo possível em casa. Por “contratempos carnavalescos” tive que ficar mais tempo em casa do que havia planejado, chegando ao hospital com dilatação 9. Não recomendo que se chegue nesse estágio de dilatação, a ida ao hospital acabou por ser muito tensa. Mas o tempo em casa foi mágico. Muitas mulheres optam por aliviar a dor se movimentando. Comigo, funcionou melhor estar quieta e meditando, sem movimento algum, nem físico e nem mental. Passei praticamente todo o período ativo sentada numa bola de pilates, ouvindo música de relaxamento, meditando e olhando para imagem de Nossa Senhora e da Sagrada família que tenho na minha sala. Parir é assim, igual e diferente para cada mulher.

Não havia nenhum outro bebê na maternidade. As cesáreas foram todas devidamente marcadas para antes do carnaval, claro. Minha equipe humanizada incluiu minha mãe, doula e pediatra apenas, pilares profissionais e emocionais da minha hora. Ops, “nossa” hora, filho. No campo afetivo, meu marido foi fun-da-men-tal. Acabou por embarcar e tomar gosto pelo assunto. Embarcou comigo nessa jornada em busca do que hoje sabemos ser o melhor para a mãe, para o bebê, e... para o pai, como não? Juntos, meu marido, minha mãe, doula e pediatra foram os meus incentivadores, os meus suportes, meus amigos.

Foram sete horas de trabalho de parto, faço parte das “sortudas” que parem rapidamente. Sorte, nesse caso, depende do ponto de vista, claro. Ao chegar ao hospital e me dar conta que não havia anestesista, que seria com a plantonista - como eu não havia planejado e que chegou a cogitar uma cesárea, pois mais uma vez havia mecônio, eita – eu busquei uma força dentro de mim, e a força estava lá. “Agora eu vou parir e pronto, só depende de mim! É parir ou parir!” Viramos leoas, feras, nossos instintos mais animalescos afloram, descobrimos uma força que nos movimenta, nos faz caminhar, nos impulsiona, nos faz buscar o essencial: dar à luz! E, então, sem querer parecer melhor do que ninguém, não sou fã dessa frase dada a superioridade, mas ela cabe muito bem nesse contexto: só passando por um parto natural para entender o que de fato é. Ocitocina, adrenalina, prolactina formando um pacote perfeito, energizando o corpo feminino a buscar o que há de mais sublime. E quando a dor mais parece que vai nos matar (morremos e não sabemos?!), quando achamos que não aguentamos mais, descobrimos que aguentamos sim... e que a criança nasceu. E aí renascemos juntos com ela.

Hoje, 19 dias após conquistar meu parto natural, a dor já não importa, mas sim a plena realização, o estado de graça, a certeza de que optei pelo melhor. Não vou listar os inúmeros benefícios do parto normal (se quiser comece assistindo o documentário “O Renascimento do parto”), pois não sou boa militante, não sou boa com polêmicas, fujo sempre de uma discussão. Nunca seria advogada. Compreendo que cabe a cada mulher escolher o seu parto, mas que essa escolha venha junto com informação. A tal da informação que nos é negada sem sabermos. Parir um filho de forma natural é uma experiência tão mágica que, mesmo com a dor, já dá vontade de engravidar novamente só para alcançar essa plenitude mais uma vez. E todas as mulheres merecem essa plenitude! E mesmo não sendo boa militante, posso dizer que me apaixonei pelo assunto. Quem alcança um parto natural sabe como ficamos dias repensando a nossa conquista. Quem quiser trocar figurinhas, vou amar poder compartilhar o que aprendi e vivenciei.

Obrigada, meu amor Joao Gilberto pelo companheirismo e maior prova de amor ao meu lado sempre, obrigada mãezinha querida, Maria Da Paixão inspiração para o meu parto antes, durante e depois, obrigada doula Cátia Carvalho e pediatra Claudio Ortega, guardados num cantinho especial do meu coração, obrigada todas as amigas, mulheres que eu desejo inspirar que busquem o mesmo caminho, obrigada amigas que me incentivaram bem de perto mesmo Laura Nobre Codeceira Spelman, Dany Santos, Rebeca Moreira, Gisele Rocha, Izabella Sepulveda, Alleri Leri e, acima de tudo, obrigada Deus, por me permitir ser mãe!

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